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Não aborte. Dê seu filho para mim

05 JUN 2019
05 de Junho de 2019

Por Eliana Haddad

Nascida em berço espírita, a atriz e cantora Ana Ariel é ativista do movimento pela defesa da vida “Brasil sem aborto”. Mãe de três filhos, dois deles (Antonio, 13 anos, e João Paulo, 6 anos) são crianças que poderiam ter sido abortadas.
Antonio foi adotado por Ana em função de uma palestra em que disse: “Não aborte, tenha o seu filho que eu crio”. Uma gestante que a assistia não teve dúvidas: logo após o parto, solicitou ao hospital que a procurasse. E ela lhe entregou o bebê.

Já João Paulo sobreviveu a uma gravidez de alto risco, que não deveria passar do quarto mês. Ana encarou o desafio e determinou que iria levar a gestação adiante absolutamente em repouso. O menino nasceu prematuro, de seis meses, e Ana continuou firme e forte.
Com duas experiências bem marcantes de maternidade, ela afirma que tanto as palestras que profere sobre valorização da vida como a direção da SOS Afeto, movimento que criou para acolher mulheres grávidas, são resultados da decisão que teve de proteger e preservar a vida.

Como e quando você iniciou o seu projeto pessoal de defesa da vida?
Comecei a fazer palestras sobre o tema aos 13 anos. Assisti no colégio ao filme O grito silencioso (The Silent Scream, documentário estadunidense de 1984 dirigido por Bernard Nathanson), um vídeo do Movimento Pró-Vida, que trata do aborto e suas consequências, mostrando a dor de um feto. Tive ali a certeza de que o aborto não era algo indiferente ao meu espírito. Mesmo jovem, inexperiente sobre os assuntos da sexualidade e das causas e consequências do aborto, daquele dia em diante nada mais foi igual. Demorei muito para entender que não deveria falar contra o aborto, mas sim em defesa da vida.

Como foi assumir-se como mãe, aos 21 anos, de uma criança que poderia ter sido abortada?
Tive muito apoio. Minha mãe é fundadora da AMIC – Associação dos Amigos da Criança, em Campinas, SP. Temos um trabalho social intenso. A instituição, que já tem 25 anos, recebe subsídios para recolher a mãe e a criança, até que essa mulher se firme e encontre um familiar, alguém que esteja apto a recebê-los. Lá percebemos que não é que a mãe não queira ter o filho. Elas não têm suporte e, desesperadas, preferem abortar. No departamento SOS Afeto, sou responsável por socorrer a gestante nesse momento difícil. Muitas não têm parentes próximos, outras foram violentadas e, já se sentindo agredidas, não querem cometer outra violência, abortando o bebê. A ideia é recolher com carinho e orientar essas mães, gestantes. Isso é prevenção, valorização da vida.

Quantas mães já passaram pela SOS Afeto?
Não sabemos o número de quantas mulheres já foram acolhidas, mas temos o número de crianças que estão vivas. São 183 crianças que não sofreram o aborto, tornando-se cidadãs do mundo, com o direito assegurado de poder escolher, falar, fora do ventre materno.

E a justificativa de que a mulher é dona de seu corpo e que só a ela cabe decidir sobre o que fazer com ele?
Faço parte também de um grupo bem bonito, o Grupo Materno, que protege a gestante e defende a humanização do parto. Acho essa questão do corpo bem complexa. Porque ao mesmo tempo em que acredito e defendo o empoderamento feminino para decidir, cuidar e gestar seu filho, não consigo entender como isso pode estar relacionado à autorização para assumir uma morte. A vida do outro não me pertence, seja extra ou intrauterina.

Você não acha injusto colocarmos essa responsabilidade apenas na mulher, tirando a responsabilidade de uma estrutura, uma sociedade para receber e respeitar esse novo cidadão?
Há mais de 20 anos palestrando sobre o assunto, o que vejo é que nenhuma mulher que tem apoio deseja abortar. Apoio de um marido, um namorado, um pai, uma mãe, ou uma instituição que diga: eu estou com você, se você não quer criar esse filho, tenha essa criança, que te acompanhamos e encaminhamos esse bebê para adoção. Dessas mulheres que já socorremos, muitas não querem mesmo ver a criança, mas elas deram a ela a chance de ela viver. E muitas criam vínculo. Por isso no primeiro ano de vida oferecemos todos os subsídios para que ela fique com seu filho, enxoval, vaga garantida na creche etc. Muitas acabam até mesmo tornando-se funcionárias.

Como você vê as políticas públicas para isso?
Tenho uma amiga muito querida, advogada, a favor do aborto, que diz que, em política pública, tudo é uma questão de dinheiro, de quanto se investe. Você pode investir para legalizar o aborto – um procedimento intrauterino que vai levar cerca de 30 minutos – ou em uma gestação inteira, com acompanhamento de dois anos, como fazemos. Quanto custa para o governo um aborto e quanto custa uma vida?

Por que na sua opinião a vida é tão malbaratada?
Quando falamos de políticas públicas, temos que olhar as mulheres em situação de rua, em situação de violência. Quanto se destina financeiramente para esse grupo? Nada. O subsídio é muito pequeno. A Delegacia da mulher tem poucos recursos. Eu entendo quando dizem que vão legalizar o aborto no sentido de proteger essa mulher. Agora, se ela pudesse ser protegida, com um pré-natal financiado, uma moradia estruturada, será que desejaria abortar? E no Brasil inteiro há mulheres abortando todos os dias.

Quais as marcas que você percebeu nas mulheres que abortaram?
Está na estatística. Mais de 75% das mulheres entram em estado de culpa, depressão profunda, pensam ou cometem suicídio. A consequência psicológica é gravíssima. O aborto causa também para o útero uma série de sequelas, como ruptura uterina, doenças por causa da clandestinidade, curetagem pós-aborto, placenta prévia etc. Na SOS Afeto vemos muitas mulheres que quiseram abortar, porque estavam no terceiro ano de medicina, porque não era o momento na vida que achavam adequado, e não geraram nunca mais. Hoje estão na fila de adoção, tentando ter uma vida de maternidade. Penso que tem a nossa hora e a hora que o universo manda.

Como vocês tratam o aspecto religioso?
É difícil falar de religião lá. A fé, para mim, seria a raciocinada, da doutrina espírita, da minha programação no meu processo reencarnatório. Para o evangélico, o católico, para o cristão, enfim, filho é um presente de Deus. E para quem é ateu, como argumentar? O argumento é o direito à vida, advogar por essa criança. Se você perguntar ao meu filho que tem 13 anos hoje: você queria ser abortado? E para o de 5, você gostaria de ter sido abortado? Eu que fiquei de repouso absoluto 78 dias, no hospital, podendo morrer no parto, tendo que fazer transfusão, com riscos de uma histerectomia na cesárea… Decidir pela vida deles? Isso é incabível, mesmo sabendo que poderão ou não voltar um dia através da reencarnação.

Qual o papel da doutrina espírita dentro desse contexto do aborto?
Influência total. A gente entende que nenhuma reencarnação ocorre fora de hora. E aqui não estou falando de questão biológica, mas de questão espiritual. Allan Kardec é muito claro na pergunta de O livro dos espíritos em que, se a mulher sofre risco, salve-se a mulher e não a criança. Mas eu pensava: “hoje tem tantos recursos na medicina para cuidar da mãe e do bebê e uma gravidez não pode ser descartada por isso… Pensava: “Posso até ficar sem útero, mas quero ficar com meu filho.” Encarnação é isso: desafios para serem superados e, assim, progredirmos.

E no caso do estupro?
Temos na instituição crianças sobreviventes de estupro e que a mãe levou a gestação até o final e o que vejo é que eles são os melhores filhos, mais amorosos, os mais queridos. Também temos crianças cujas mães não optaram pelo aborto porque não queriam ser causadoras de outra violência. E não digo crime com relação ao direito penal, digo em relação à lei divina: o meu direito sobre outra vida. Eu sou contra. Acho que a mulher tem que deixar seguir a gestação até o final. Já vi mães, também, que estupradas, não querem nem ouvir falar no bebê. Mas, depois, na vara de infância, alguém pode estar de mala pronta esperando por ele, para ter uma vida cheia de amor. Há casos, também, que conforme a gravidez vai passando, a gestante vai se familiarizando com a ideia, com os movimentos do bebê e acaba não se arrependendo de ter ficado com a criança.

O que está em risco hoje?
A legalização do aborto, o que é lamentável. Sei que há muito desrespeito à mulher, clínicas clandestinas, sem o mínimo de higiene. É desumano o que as mulheres passam, os remédios que tomam, com sérios riscos, inclusive para o bebê, quando não conseguem efetivar o aborto. Apesar de tudo disso, porém, continuo contra a legalização do aborto no Brasil. Não se pode querer consertar um erro com outro. O aborto compromete o Brasil como “Pátria do Evangelho”. É compactuar com algo criminoso, contra o direito à vida. Quando perdermos essa força, será mais uma batalha. Penso também que as clínicas de aborto, legais ou clandestinas, deveriam ter um vídeo esclarecedor, conscientizando sobre o que ocorre com o feto e os riscos para a mulher, que incluem altos índices de consequências emocionais e fisiológicas: depressão, culpa, medos, esterilidade, etc. É preciso dar chance à mulher para saber a que está se submetendo.

O que você diria à mulher que, nesse momento, esteja pensando em abortar seu bebê?

Se você não quiser ter seu filho, não aborte, dê ele para mim. A AMIC tem muitas mães como eu que têm muito amor e coragem para criar seu filho. Se você estiver pensando nisso nesse momento, entre em contato comigo, envie um email, me ligue, porque tenho certeza de que a gente vai cuidar do seu bebê. ( contato@anaariel.com.br www.facebook.com/anaariel.cantora).

Filha do estupro, não. Filha de Deus

O Seminário Internacional em Defesa da Vida, realizado em 12 de julho, em Brasília, em comemoração aos dez anos do Movimento Brasil sem Aborto, contou com a participação da conferencista Rebecca Kiessling, dos Estados Unidos.
Aos 47 anos, advogada, mãe de cinco filhos (dois adotados), Rebecca é ativista pró-vida com várias frentes de trabalho, dentre os quais a fundação do Hope After Rape, entidade que apoia e protege mães e filhos sobreviventes de estupro. Sua história de vida está contada no filme The gift of life (TV Movie 1982).
“Fui concebida quando a minha mãe biológica foi sequestrada e ameaçada com uma faca por um estuprador. Quando nos conhecemos, eu já tinha 19 anos”, conta a ativista, registrando a sua gratidão pelos legisladores e ativistas pró-vida e esclarecendo que só não foi abortada porque o aborto ainda era ilegal em Michigan, o que dificultou a ação clandestina.
Rebecca foi adotada por uma família judia. Mais tarde descobriu sua verdadeira história. Tornou-se cristã, o que mudou a sua forma de ver a vida.
“Quero ensinar aos meus filhos, ao mundo, que o valor das pessoas não está nas circunstâncias de sua concepção, de seus pais, sua aparência, os seus sucessos ou fracassos, suas habilidades ou deficiência. Entendi que fui criada com um propósito, à imagem e semelhança de Deus. E sei que a própria Bíblia diz que mesmo que os pais abandonem seus filhos, Deus nunca os abandonará. Isso me trouxe grande consolo, esperança, uma identidade, não como filha de um estupro, mas uma criança de Deus.”
Em entrevista exclusiva ao Correio Fraterno, em São Paulo, a ativista lembrou que onde a indústria da pornografia com conexão com negócios de exploração sexual é mais desenvolvida, maiores são os índices de violências sexuais.

“Estudos mostram que quanto mais cedo o homem é exposto à pornografia, maior é a sua desconexão para conseguir se relacionar de uma maneira saudável. Muitas crianças estão crescendo ao lado de um pai agressivo, que também não respeita suas mães. Como há famílias destruídas! Muitos, homens e mulheres, ainda desconhecem o que é uma relação saudável.”

Publicado no jornal Correio Fraterno – edição 470  julho/agosto 2016

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